Aos mestres, com carinho

Na última sexta feira, dia 30/09, durante a 13a edição do seminário anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), foram premiados os professores Luiz Gonzaga Godoi Trigo e Luiz Octávio de Lima Camargo, respectivamente com os títulos de Pesquisador Destaque e Pesquisador Emérito.

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Por certo a premiação emocionou muitos de nós que estávamos presentes e também quem não estava. Não é novidade para ninguém que Trigo e Luiz Octávio são duas das figuras mais importantes do turismo, lazer e hospitalidade deste país. Como profissionais e como acadêmicos. Ambos seguiram uma carreira brilhante de mercado e na universidade, como professores e pesquisadores. A ‘ficha corrida’ dos dois é enorme.

Em comum, foram  funcionários do Sistema S, no SENAC e no SESC, nas áreas de Hotelaria e de Lazer. Deixaram suas marcas na instituição e fizeram história. Uma história que se reproduz em mim e nos muitos funcionários de ambas as instituições, que os reconhecem por sua influência, por sua cultura, por sua garra no trabalho e na vida.

Foi no SENAC que conheci o Trigo, em 1994, quando ele era consultor no Curso de Tecnologia em Hotelaria do campus de Águas de São Pedro, onde eu viria a dar aulas no ano seguinte. Mais tarde, ele tornou-se gerente corporativo da unidade da Francisco Matarazzo e veio a ser meu chefe. Nossas salas ficavam no mesmo andar e muitas vezes ao cruzá-la Trigo entrava. Gostava da conversa com David Tuch, Mauro Motoda e eu. Sei lá por que, mas ouso desconfiar que por muitos motivos. Algumas vezes saí para jantar com ele e Ronaldo Barreto – levaram-me, certa feita, a um restaurante indiano para comer enguia, o que me agradou deveras. Sim, de verdade. Tínhamos uma relação curiosa - nem próxima, nem distante. Mas, de alguma forma, com a tônica das relações de amizade que duram muito tempo. Um dia, entrou na minha sala com um livro, entregou-me e disse: “Você tem que ler isso”. Era ‘Zen e a arte de manutenção das motocicletas’. Conheço pouquíssimas pessoas que o leram e não podia ter havido presente melhor. Por que foi dado? Nunca soube, nem quis saber. Noutra ocasião, viajou para a China e deixou a Simone, bibliotecária, preocupada com o Editorial do clipping mensal, feito por ele. Duas edições ficariam órfãs e ela desejava que ele deixasse alguém com a tarefa. Ele entrou na minha sala, entregou-me a incumbência e disse: “Te trago um presente da China”. Não trouxe, não cobrei. A confiança que ele me entregou naquele momento era uma mostra clara de admiração – Trigo gosta de quem tem amor pelas letras e confia sua pena a muito poucas pessoas. Fui uma delas e esta deferência eu levo como um trofeu. Na volta, ele não fez o terceiro clipping, delegando-o também a mim. Tempos depois, entregou-me suas aulas da UniSant´Anna, por não dispor de horários livres para ministrá-las. Deu-me todas, uma a uma. Foi a primeira vez que me vi professora em tempo integral. Eram 40 horas de SENAC e outras 16 de Uni Sant´Anna. Com o endosso dele. Foi meu passaporte para o futuro, no sentido de me fazer ver o quanto a docência estava em mim e que aquilo era o que eu queria ser para sempre: professora. Num dos bolos do mês, que ele organizava para aniversariantes e para dar destaque a funcionários que haviam atingido alguma meta ou feito algo legal, chamou-me lá na frente para falar do meu trabalho à frente de um projeto que havíamos desenvolvido anos antes para o Caesar Park – uma pesquisa de mercado em 17 cidades, com 39 pesquisadores em campo, um QG montado na minha casa e cinco horas de exposição dos resultados no escritório corporativo do antigo Caesar Park da Augusta. Naquele momento, era implantado o primeiro dos hotéis com a marca Caesar Towers estudados nesse tal projeto e o SENAC havia recebido um convite para a abertura, com menção à participação do nosso setor nos estudos. Na sequência do parabéns, deu-me um abraço apertado e falou no meu ouvido: “Curta, mas não voe muito alto, mantenha os pés no chão. Eu lhe conto: a Terra é azul”. Nunca me esqueci disso. Quando alguma coisa dá muito certo na minha vida e fico com vontade de sair voando, lembro: a Terra é azul. Foi o que eu disse a ele na última sexta feira. Emocionamo-nos. Porque a vida é assim, uma sequência de trocas, um caminhar passo a passo, com alguém segurando a nossa mão. Segurar na mão de Luiz Trigo nesses 22 anos tem sido um aprendizado riquíssimo. Falar com ele de religião, viagens, filosofia ou de coisas bobas, sobre as quais muitas vezes discordamos, leva-me a pensar que a vida vale a pena mesmo é por essas histórias que a gente coleciona e guarda no coração.

Luiz Octávio conheci há poucos anos. Muito provavelmente depois de todo mundo. Fui à EACH pedir a ajuda dele num projeto, conversamos um pouco, contei a ele de mim e ele me falou da história dele na área de hospitalidade. Uma paixão acadêmica tardia, depois de tanta colaboração já dada na área do lazer, em sua história no SESC. Se essa coisa de vocação existe mesmo, pois nele isso se provou. A vida no seminário, a proximidade com as coisas do espírito, o humor inteligente e o olhar curioso o levaram à área que tem tanto dele e na qual ele se tornou, para nós, o representante maior. O humor e a notável erudição são o bastante para fazer com que qualquer pessoa se interesse muito por estar ao seu lado e conversar por algumas horas, ou minutos somente. Mas há mais. Luiz Octávio é das pessoas mais generosas que conheço e, comigo, tem sido ao extremo. Tem ainda me concedido uma confiança que preciso publicamente reconhecer e agradecer. Gratuitamente. Foi por confiança que ele se meteu num avião em 2014, indo parar numa cidadezinha fria do norte dos Países Baixos, para um encontro com Conrad Lashley (!!!!). Foi por confiança que ele escreveu um dos textos que considero um dos melhores entre os escritos por ele, para a edição de maio de 2015 da Revista Hospitalidade. Foi por confiança que ele deu as diretrizes para meu trabalho no pós-doutorado. É confiando em mim que ele me incentiva a correr atrás dos meus sonhos, a buscar meu lugar, a escrever, a pensar, a participar de discussões sobre questões que mal entendo. Se preciso de um conselho, é a ele que recorro. É ele quem procuro quando não sei como agir numa ou em outra situação. E eu o ouço. Sempre.

Não tenho muito a medida da minha gratidão por esses dois. Mas sei que devo declará-la aqui e agora. Parabéns, meninos! Muito obrigada, por tudo. Vocês merecem demais esse  prêmio e esse reconhecimento!

 

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LANÇAMENTO: The Routledge handbook of hospitality studies: theoretical perspectives and debates

Em dezembro próximo será lançado o livro The Routledge handbook of hospitality studies: theoretical perspectives and debates, sob a batuta do queridíssimo Prof. Dr. Conrad Lashley, da Stenden University of Applied Sciences, localizada em Leeuwarden, nos Países Baixos.

Trata-se de uma obra de vulto, que reafirma a importância do Prof. Lashley no contexto dos estudos de hospitalidade, em nível mundial.

O conjunto de 432 páginas e 33 capítulos conta com cinco capítulos escritos por nove autores brasileiros – Luiz Gonzaga Godoi Trigo (EACH-USP), Ricardo Lanzarini (IFSP Barretos), Márcia Maria Cappellano dos Santos (UCS), Olga Araujo Perazzolo (UCS), Siloe Pereira (UCS), Leandro Benedini Brusadin (UFOP), Helena Catão Henriques Ferreira (UFF), Ana Paula Garcia Spolon (UFF), Aguinaldo César Fratucci (UFF) – e uma autora portuguesa, a professora Isabel Baptista, da Universidade Católica do Porto.

A obra é inovadora no sentido de apresentar temas ainda pouco tratados nos estudos de hospitalidade (como, por exemplo, a forma de constituição dos leprosários e das antigas hospedarias de imigrantes, a economia colaborativa, o mercado do sexo, o empoderamento feminino, a questão da identidade territorial e o prossumerismo) e por acolher pesquisadores jovens do mundo todo.

Mais um exemplo de que o caminho da colaboração, da atuação em rede e da alteridade no sentido do respeito às ideias e ao pensamento do outro pode de fato trazer grandes resultados à academia, tornando-a um ambiente mais saudável, alegre e hospitaleiro.

Informações em https://www.routledge.com/The-Routledge-Handbook-of-Hospitality-Studies/Lashley/p/book/9781138931121.

SERVIÇO:

The Routledge handbook of hospitality studies: theoretical perspectives and debates

Conrad Lashley (editor)

Routledge, 2016

ISSN: 978-1-138-93112-1

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O que é hospitalidade?

Longo caminho a percorrer na resposta a esta pergunta, que parece tão simples.

O começo da discussão está aqui, nas palavras do Prof. Dr. Conrad Lashley que tem me ensinado a compreender o sentido verdadeiro da hospitalidade acadêmica, compartilhando conhecimentos e tendo uma postura absolutamente altruísta em relação à pesquisa e produção de conhecimento relativo ao tema:

https://www.youtube.com/watch?v=dc2x9_8zgos.

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Por onde andou Sherlock Holmes

Sherlock Holmes é o personagem criado pelo médico e escritor escocês Sir Arthur Conan Doyle em 1887 (na novela Um estudo em vermelho) e que apareceu, no total, em quatro romances e 56 contos do escritor.

Holmes era um detetive particular britânico cuja característica mais destacada era a capacidade ímpar de uso da lógica dedutiva e do método científico para solucionar casos misteriosos. Diz-se que Doyle inspirou-se em um ex-professor, Dr. Joseph Bell, para moldar a personalidade de Sherlock Holmes.

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O “detetive consultor” tornou-se muito popular e é considerado até hoje um dos mais carismáticos personagens da literatura policial.

Na ficção, sua residência era o número 221B da Baker Street, em Londres, onde desde 1990 está instalado o Sherlock Holmes Museum, que conta a sua história e de seu fiel amigo e escudeiro, o Dr. John H. Watson, presente na maioria das tramas de Doyle.

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Sherlock Holmes aparece ainda citado em muitas obras e inspirou, na história, dezenas de personagens, entre os quais Sir Lock Holmes e Berloque Gomes (ambos da Disney) e Adrian Monk e Gregory House, das séries televisivas americanas Adrian Monk e Dr. House. As obras de Doyle foram ainda adaptadas para o teatro, cinema e TV.

No Brasil, o escritor Jô Soares homenageia o personagem (e também o Dr. Watson) na obra O Xangô de Baker Street, publicada pela Companhia das Letras em 1995 e adaptada por Miguel Faria Jr. para o cinema em 2001. O livro – e o filme – conta a história do desaparecimento de um violino Stradivarius. No Brasil para uma série de apresentações, a atriz Sarah Barnhardt indica ao imperador que convide o detetive Sherlock Holmes, seu amigo pessoal, para desvendar o mistério. Na história, várias cenas de um Rio de Janeiro turístico e hospitaleiro, pelos olhos dos britânicos Sherlock Holmes e Dr. Watson.

A análise desta obra, pela vertente do turismo, da hospitalidade e da geografia cultural, foi apresentada no último dia 16 de outubro, durante o II Colóquio Literatura e Paisagem e II Colóquio Interdisciplinar Literatura, Viagens e Turismo no Brasil, na França e em Portugal, eventos que acontecem em Niterói e no Rio de Janeiro, promovidos pelo grupo de pesquisa Estudos de Paisagem nas Literaturas de Língua Portuguesa (CNPq/UFF).

A apresentação foi brilhantemente realizada por minha querida orientanda, Izadora Montez, representando-me e o texto completo será publicado em livro, coordenado pelo grupo de pesquisa da UFF, este capitaneado pela Profa. Dra. Ida Alves.

O trabalho, intitulado “Por onde andou Sherlock Holmes: o Rio de Janeiro turístico e geográfico na obra O Xangô de Baker Street, de Jô Soares”, é parte das pesquisas desenvolvidas na linha de pesquisa Hospitalidade: materialidades, espacialidades, práticas e desafios contemporâneos, do grupo de pesquisa Hospitalidade contemporânea.

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In search of hospitality…

Nunca o título do livro do Prof. Conrad Lashley me pareceu, pessoalmente, tão adequado.

Esta semana, fiz minha parte como pesquisadora e fui “em busca da hospitalidade”, em uma viagem que começou com uma visita técnica ao Stenden Hotel School, vinculado ao programa de Gestão Hoteleira da Stenden University, em Leeuwarden, norte da Holanda. Para quebrar paradigmas educacionais e preconceitos profissionais – há coisas maravilhosas sendo feitas, em termos de formação, em lugares que nos atrevemos (não devendo…) a ignorar!

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Em Leeuwarden, fui recebida pelo Prof. Sjoerd Gehrels e pelo Prof. Conrad Lashley, na verdade o responsável por intermediar esta visita, uma vez que foi quem apresentou brasileiros e holandeses!

Agora, em Londres, participo, na British Sociological Association, da conferência “Food, drink and hospitality: space, materiality and practice”, organizada pelo Prof. Peter Lugosi (Oxford Gastronomica/Oxford Brookes University) e que conta com a presença de muitos pesquisadores que admiramos.

São muitos, mas para mim em especial são relevantes as presenças do Prof. Paul Cleave (University of Exeter) e do Prof. Paul Lynch (Napier University). Há estudiosos da escola britânica como um todo e os vindos de China, Estados Unidos, Austrália, Itália e Alemanha.

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Não sei onde essa busca vai dar. Mas sei que encontro, nessas experiências, excelentes exemplos do que Alison Phipps e Ronald Barnett* chamam de ‘hospitalidade acadêmica’:

“Academic hospitality is a feature of academic life. It takes many forms. It takes material form in the hosting of academics giving papers. It takes epistemological form in the welcome of new ideas. It takes linguistic form in the translation of academic work into other languages, and it takes touristic form through the welcome and generosity with which academic visitors are received. These forms intersect each other and may co-exist at any one time. In the midst of the different forms of academic hospitality other matters surface. What is at stake when we give and receive academic hospitality? With travel being increasingly commonplace in academic life what forms of welcome and of hosting are emerging? Who is welcomed with open arms and who is not? What are the proper limits of academic hospitality? What of the stranger in our midst? What is the language of hospitality? What of virtual academic hospitality? What are the rules of the ceremonies of academic welcome? And what of the academic guest? How might we understand the modes and forms of academic hospitality? This article examines recent theories of hospitality and academic life in order to assess the potential, the rules and the limits for hospitality in an academy subject to rapid change and movement of ideas, bodies and space”.

* Link para o artigo: http://ahh.sagepub.com/content/6/3/237.short.

De minha parte… gratidão. Não é sempre que, em uma única semana, a gente tem a oportunidade de interagir com nossas “referências”. E sigamos adiante, em busca da hospitalidade!

 

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Como nasce a ética – por Leonardo Boff

Texto publicado no site do Instituto Ethos, para os interessados em repensar o que é a hospitalidade e para que ela serve, nos dias de hoje. Disponível aqui.

Como nasce a ética?

 

A sociedade capitalista valoriza mais a competição do que a cooperação e magnifica o indivíduo que se constrói sozinho, e não a sociedade e a comunidade. 

Por Leonardo Boff*

A base de toda construção ética, cujo campo é a prática, está nesta pressuposição: a ética surge quando o outro emerge diante de nós.

O outro pode ser a própria pessoa que se volta sobre si mesma, analisa a consciência, capta os apelos que nela se manifestam (ódio, compaixão, solidariedade, vontade de dominação ou de cooperação, sentido de responsabilidade), se dá conta de seus atos e das consequências que deles se derivam. O outro pode ser aquele que está à sua frente, homem ou mulher, criança, trabalhador, empresário, portador de HIV, negro etc.

O outro podem ser os outros como uma comunidade, uma classe social, a sociedade como um todo, ou, numa perspectiva mais global, a natureza, o planeta Terra como Gaia e, em último termo, Deus.

Diante do outro ninguém pode ficar indiferente. Tem que tomar posição. Mesmo não tomando posição, silenciando e mostrando-se indiferente, já é uma posição.

A ética surge a partir do modo como se estabelece a relação com esses diferentes tipos de outro. Pode fechar-se ou abrir-se ao outro, pode querer dominar o outro, pode entrar numa aliança com ele, pode negar o outro como alteridade, não o respeitando, mas incorporando-o, submetendo-o ou simplesmente destruindo-o.

De todas as formas, o outro representa uma pro-posta que reclama uma res-posta. Desse confronto entre pro-posta e res-posta surge a res-ponsa-bilidade. Ao assumir minha responsabilidade ou demitir-me dela, me faço um ser ético. Dou-me conta da consequência de meus atos. Eles podem ser bons ou ruins para o outro e para mim.

O outro é determinante. Sem passar pelo outro (que posso ser eu mesmo), toda ética é antiética.

Não sem razão, todas as religiões e tradições éticas, do Ocidente e do Oriente, estabelecem como máxima fundadora do discurso ético: “Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Ou positivamente: “Faze ao outro o que gostarias que te fizessem a ti”. É a regra áurea.

E como o outro mais outro é o pobre e o excluído, o imperativo ético mínimo e urgente, prévio a qualquer outro, é esse, bem formulado por Enrique Dussel, argentino e filósofo da libertação: “Liberta o pobre e inclui o excluído”.

Apliquemos isso à nossa sociedade. Ela não é uma sociedade qualquer. Precisa ser qualificada: é uma sociedade predominantemente estruturada no modo de produção capitalista, quer dizer, privilegia o capital sobre o trabalho, privatiza os meios de produção e define de forma desigual o acesso aos bens necessários à vida: primeiro quem detém os meios de produção, depois os demais, deixando até de fora quem não tem força social de pressão. São os excluídos, hoje perfazendo as grandes maiorias da humanidade, cujas vidas não têm sustentabilidade, vivem abaixo do nível de pobreza e, em consequência, morrem antes do tempo.

Esse tipo de sociedade valoriza mais a competição do que a cooperação e magnifica o indivíduo que constrói sozinho sua vida, seu bem-estar e seu destino, e não a sociedade e a comunidade dentro das quais, concretamente, o indivíduo sempre se encontra.

A sociedade neoliberal levou até as ultimas consequências essa visão. Por isso, os governos administram desigualmente os bens públicos, privatizam, planejam políticas públicas e sociais pobres para os pobres e ricas para os ricos e poderosos, sejam indivíduos, empresas ou classes; atendem primeiramente a seus interesses, garantem o seu tipo de consumo e são atentos às suas expectativas. Não incentivam as pessoas a olhar para os lados onde estão os outros e assim fazer e refazer continuamente a solidariedade social.

Tais governos não realizam a definição mínima de política, que é a busca comum do bem comum e o cuidado das coisas do povo. Por isso são antiéticos e fautores de atitudes coletivas em contradição com os apelos éticos. Porque não se orientam pelo outro, que é o princípio fundador da ética básica.

A sociedade mundial hoje globalizada nesse modelo antiético promove a globalização como homogeneização: um só pensamento, um só modo de produção (o capitalista), um só tipo de mercado, um só tipo de religião (o cristianismo), um só tipo de música (rock), um só tipo de comida (fast food), um só tipo de executivo, um só tipo de educação, um só tipo de língua (o inglês) etc.

Com a negação da alteridade ou o seu submetimento ou a sua destruição, a sociedade-mundo atual se coloca em contradição com a ética. Essa atitude perversa tem como consequência a má qualidade de vida atual em todos os âmbitos sociais, culturais e ambientais.

Essa atitude é tanto mais grave pelo fato de atingir o substrato físico-químico que possibilita a biosfera e o projeto planetário humano. Não se respeita a Terra como o grande outro e como subjetividade, chamada Gaia. Reduz esse superorganismo vivo, a um baú inerte de recursos naturais, entregues ao bel-prazer humano. Violenta a alteridade dos ecossistemas, depredando seus recursos, ameaçando as espécies, envenenando os ares, poluindo os solos, contaminando as águas, como se esses representantes da comunidade terrenal não tivessem uma história mais ancestral do que a nossa e nós não dependêssemos deles para a nossa própria vida.

O preceito ético-ecológico urgente hoje é este: “Age de tal maneira que tuas ações não sejam destrutivas da Casa Comum, a Terra, e de tudo o que nela vive e coexiste conosco”.

Ou: “Age de tal maneira que tua ação seja benfazeja a todos os seres, especialmente aos vivos”.

Ou :“Age de tal maneira que permitas que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a continuar a evoluir conosco”.

Ou então: “Usa e consome o que precisas com responsabilidade para que as coisas possam continuar a existir, atendam nossas necessidades e as das gerações futuras, de todos os demais seres vivos, que também junto conosco têm direito de consumir e de viver”.

Precisamos consumir para viver. Mas devemos consumir com responsabilidade e com solidariedade para com os outros, respeitando as coisas em sua alteridade e entrando em comunhão com elas, pois são nossos companheiros e companheiras na imensa aventura terrenal e cósmica.

Como se depreende, não é essa a ética que predomina. A ética vigente é predatória, irresponsável, individualista, perversa para com os outros, tratados com dissimetria e injustiça nos processos produção, de distribuição e de compensação. Ela é cruel e sem piedade para a grande maioria dos seres vivos, humanos e não humanos. Por fim, ela ameaça o futuro da biosfera e do projeto humano.

Para superarmos essa ética altamente destrutiva do futuro da humanidade e do planeta Terra, devemos partir de outra ótica. Só uma nova ótica pode gerar uma nova ética.

A nova ótica que está se difundindo um pouco por todas as partes arranca de outra compreensão da realidade, fundada no conjunto de saberes que perfazem as ciências da Terra.

A tese de base dessa ótica afirma que a lei suprema do universo é a da interdependência de todos com todos. Tudo está relacionado com tudo em todos os pontos e em todos momentos. Ninguém vive fora da relação. Mesmo a lei de Darwin do triunfo do mais forte se inscreve dentro dessa panrelacionalidade e solidariedade universal. Por causa das inter-retrorrelações de todos com todos é que se garantiu a diversidade em todos os campos, particularmente, a biodiversidade e o fato de todos podermos chegar ao ponto a que atualmente chegamos.

Sobrevivemos graças às bilhões de células que interagem entre si em nosso corpo e das bilhões de bactérias, mitocôndrias e outros corpos que vivem dentro das células, células que formam organismos, corpos, sistemas, interconcectados com o meio natural e cósmico.

Essa cooperação de todos com todos funda uma nova ótica, que, por sua vez, origina uma nova ética de con-vivência, cooperação, sinergia, solidariedade e comunhão de todos com todos e com a Terra, com a natureza e com seus ecossistemas. A partir dessa ética, nos contemos, nos submetemos a restrições e valorizamos as renúncias em função dos outros e do todo.

Ou assumimos tal ética e sobre ela fundamos um novo pacto sociocósmico ou corremos o risco de ir ao encontro do pior, ou de fazermos uma travessia altamente destruidora da vida e da humanidade, capaz de dizimar um número incontável de seres vivos.

A partir dos sobreviventes desse eventual colapso, aprender-se-ão as amargas, mas benfazejas lições para uma nova história. Com os valores fundados na cooperação e na solidariedade, inaugurar-se-á outro tipo de ser humano, com outro tipo de civilização e com outro tipo de destino planetário da humanidade. O ser humano, indivíduo social, aprenderá a entender-se como sendo a própria Terra que chegou ao momento de sentir, pensar, amar, venerar e se responsabilizar pelo futuro comum dos humanos, de todos os demais seres e da própria Terra, pátria e mátria de todos.

Uma nova história começará, seguramente mais cooperativa, humanitária, ética e espiritual.

* O teólogo e professor Leonardo Boff é autor de mais de 60 livros sobre teologia, filosofia, espiritualidade, antropologia e mística.

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Hospitalidade ao estranho, dimensões do entendimento moral

Lendo Hospitality to the stranger: dimensions of moral understanding, coletânea de ensaios de Thomas W. Ogletree, da Universidade de Yale, publicados pela Fortress Press em 1985.

A cada dia, sinto-me mais orientada a acreditar que o que define a hospitalidade são os preceitos da ética e as questões relacionadas à cultura, o que acaba por orientar, por óbvio, os paradigmas sociais de uma vida baseada na moral, bem como por evidenciar o egoísmo como o contraponto da prática moral da hospitalidade.

Para Thomas W. Ogletree, a identidade e a pluralidade são as bases que orientam o que é familiar e o que é estranho, vistos aos olhos de um e de outro, de visitantes e visitados, de hóspedes e anfitriões, de viajantes e residentes. Em última instância, uma boa alternativa para pensar “as tradições da hospitalidade e de refletir sobre a natureza da vida moral”.

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A volta do Hotel Glória

 Acabo de receber em casa o livro “Hotel Glória – Um Tributo à Era Tapajós, Afetos, Memórias, Vínculos, Olhares”, lindo, necessário ao resgate e à manutenção da história da hotelaria nacional e, de quebra, bem escrito e cheio de curiosidades. Vem tarde. Poucas iniciativas neste sentido foram empenhadas, com destaque para os livros do Copacabana Palace (DBA) e do Grande Hotel São Pedro (SENAC São Paulo).

 

Disponível em http://farm1.static.flickr.com/121/274680342_9633640bf9.jpg, consulta em 21/10/2009.

 Sobre a reforma do hotel, que está sendo empreendida pelo Grupo EBX, do empresário Eike Batista, leia mais em http://vejabrasil.abril.com.br/rio-de-janeiro/editorial/m1358/passado-e-futuro-de-gloria. Para aguçar a curiosidade, veja a representação gráfica da nova fachada do hotel, a ser reinaugurado em 2011.

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Transatlântico vira Hotel

Transatlântico de luxo ancora em Dubai para virar hotel flutuante

O Queen Elizabeth 2, o mais famoso transatlântico britânico de luxo, chegou hoje a Dubai para começar uma nova vida como hotel flutuante, ancorado em uma ilha artificial.

Mais de 60 barcos da Marinha e particulares, liderados pelo megaiate do governante de Dubai, recepcionaram a embarcação de 70 mil toneladas no Golfo Pérsico. No porto Rashid, o lendário navio foi recebido pela banda da polícia de Dubai, com direito a fogos de artifício.

Com 40 anos nos mares, a embarcação de 294 metros de comprimento viajou 6 milhões de milhas, carregou 2,5 milhões de passageiros e cruzou o oceano Atlântico mais de 800 vezes.

“Para o QE2, acreditamos que a vida realmente começa aos 40″, brincou Manfred Ursprunger, o executivo-chefe da Nakheel, responsável pelo novo negócio. Segundo ele, serão precisos dois a três anos para adaptar o navio e transformá-lo em um hotel com dúzias de quartos, diversos restaurantes, um teatro e um spa.

Alguns dos mais famosos quartos do QE2, como The Queen’s Room (O Quarto da Rainha), The Captain’s Quarters (Os quartos dos Capitães) e The Bridge (A Ponte) serão preservados.

A Cunard, antiga proprietária da embarcação, a vendeu no ano passado por cerca de US$ 100 milhões (R$ 231 milhões).

Lançado em 1967, o navio entrou em operação em 1969 e tem ao menos 26 voltas ao mundo no currículo. Ele saiu de Southampton, no Reino Unido, em 11 de novembro para sua última viagem.

Fonte: da Associated Press, em Dubai (Emirados Árabes Unidos)
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Mais uma novidade…

Instalação permite que visitante durma em museu de Nova York
da BBC Brasil

O artista belga Carsten Höller criou uma instalação que reproduz um quarto de hotel dentro do museu Guggenheim, em Nova York, e que abrigará hóspedes durante a noite.

A instalação “Revolving Hotel Room” (Quarto de Hotel Giratório, em tradução literal) traz a mobília tradicional de um quarto de hotel sobre quatro discos de vidro giratórios.

Durante o dia, a obra pode ser vista como parte da exposição “theanyspacewhatever” e à noite, o quarto é reservado para visitantes que queiram passar a noite no museu.

A instalação “Revolving Hotel Room”, que abriga visitantes durante a noite no museu
A oportunidade de se hospedar na instalação luxuosa de Höller e de passear pelo Guggenheim quando o museu está vazio, no entanto, não sai barato.

O custo do pernoite varia entre US$260 (R$581) durante a semana e US$ 799 (R$ 1.788) nos finais de semana, incluindo o café da manhã.

Cada hóspede pode passar apenas uma noite no museu e a instalação abriga no máximo duas pessoas por noite.

A exposição “theanyspacewhatever”, da qual a instalação “Revolving Hotel Room” faz parte, tem como objetivo ir além das artes visuais, aproximar a experiência artística do cotidiano e ampliar as convenções tradicionais dos museus.

Na mostra, a artista canadense Angela Bulloch irá transformar o teto do museu em uma constelação artificial de estrelas, e a francesa Domonique Gonzalez-Foerster usará uma instalação sonora para “tropicalizar” uma das rampas do museu. Já o britânico Liam Gillick intervirá nos serviços de sinalização do Guggenheim, para “reorientar” a experiência dos visitantes no espaço e na exposição.

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