Era o Hotel Cambridge – uma história contada de diversas formas

O Hotel Cambridge é um clássico da hotelaria paulistana. Daqueles que inovam, subvertem lógicas, marcam época. Nascido Claridge, em 1951, mudou de nome em 1962. Sempre foi um camaleão, adaptando-se para entregar serviço de primeira linha, em prédio com localização privilegiada, no centro de São Paulo.

Com a velhice, a vida não mais lhe sorriu. Doente, cheio de problemas e numa área que também se degradou, o hotel entrou em 2010 para a lista de desaproprições da Prefeitura Municipal, para ser reformado e entregue à sociedade como moradia popular. A reforma demorou e o prédio foi ocupado por refugiados e moradores sem-teto.

O lugar transformou-se em palco de uma cultura multifacetada, com histórias presas em quatro paredes e, ao mesmo tempo, mundiais. A história virou filme – Era o Hotel Cambridge, de Carla Caffé, que fala desse submundo do refúgio nas cidades de acolhida: gente amontoada em ocupações, buscando com as próprias mãos a justiça que deveria ser garantida pelo poder público, como pregam os Direitos Humanos.

“Era o Hotel Cambridge: arquitetura, cinema e educação”, o livro, é um desdobramento do filme e registra o processo educativo e arquitetônico da direção de arte do filme. Alcança as entranhas do edifício, o íntimo das pessoas e o nosso estômago.

280403.jpg-c_300_300_x-f_jpg-q_x-xxyxx 648313_era-o-hotel-cambridge-arquitetura-cinema-e-educacao-752895_m1_636245668852470000

 

E Eliane Brum, das minhas escritoras favoritas, fala lindamente dessa experiência de metalinguagem que é, também, uma lição de vida para todos nós.

Matéria completa reproduzida logo a seguir e disponível no site do El País.

Veja o filme, leia o livro, alcance a vida

‘Era o Hotel Cambridge’ rompe fronteiras e torna-se um acontecimento político-cultural capaz de expressar as tensões e a potência do Brasil atual

Cena do filme Era o Hotel Cambridge.
Cena do filme Era o Hotel Cambridge. DIVULGAÇÃO

– A gente não tá podendo nem cuidar de nós, os brasileiros, e ainda temos que cuidar dos refugiados do Congo, refugiados da Colômbia, dos libaneses e palestinos… É difícil.

Na reunião da ocupação do Hotel Cambridge, no centro de São Paulo, os moradores tinham acabado de saber que a juíza concedera a reintegração de posse do prédio. A fala acima é de um brasileiro. Ela revela a tensão sobre quem teria mais direitos entre aqueles que ali estão, e que ali estão porque seus direitos têm sido sistematicamente violados. Um congolês levanta-se e dá uma resposta imediata:

– Se você não sabe, o Brasil lá na ONU faz bonito na política internacional, aí concede refúgio pra nós. Quando nós entramos aqui, é cada um se vira. Nós somos problemas do Brasil, sim, porque Brasil concedeu refúgio.

Outro se levanta:

– Eu sou refugiado palestino. Vocês são refugiados brasileiros no Brasil.

Carmen da Silva Ferreira, a líder da Frente de Luta por Moradia (FLM) e coordenadora da ocupação do Hotel Cambridge, faz a síntese:

– Brasileiro, estrangeiro… somos todos refugiados, refugiados da falta dos nossos direitos.

Esta é uma cena do filme Era o Hotel Cambridge (Aurora Filmes), que acaba de estrear nos cinemas brasileiros e tem sido recebido com respeitosa atenção nos países por onde tem andado. Não é apenas um filme, é também um livro. E não é apenas um filme e um livro, mas um acontecimento. Às vezes uma obra cultural é tão original que provoca um impacto na nossa forma de perceber o Brasil, a cidade, nós mesmos. Era o Hotel Cambridge – o filme assinado por Eliane Caffé, o livro assinado por Carla Caffé – é um destes cortes no tecido do tempo.

O Hotel Cambridge, personagem central do filme, foi na vida real de São Paulo um hotel de luxo construído no final anos 50 com evocações hollywoodianas. Com o crescimento da cidade e o abandono da região central pelos mais ricos, ele testemunhou sua própria decadência. Em 2004, cerrou suas portas e tornou-se mais um esqueleto do centro, um morto insepulto, abandonado ao vazio. Em 2012, foi ocupado pelo movimento dos sem-teto, uma das forças de maior potência da maior cidade do Brasil.

O hotel foi ocupado por cerca de 140 famílias, mais de 240 crianças. A quantidade de meninos e meninas fica explícita em cuidados como um surpreendente e bem organizado estacionamento de carrinhos de bebê. Na dinâmica da especulação imobiliária, que se impõe como uma lógica questionada por poucos, o fato de o Cambridge ter ficado abandonado por oito anos, juntando lixo e empoçando água, tornando-se um criadouro de mosquitos numa época de denguezika e chikungunya, não parece ser um problema para a população.

Já quando o velho hotel foi ocupado para a moradia de quem não tem, os ocupantes são tachados de “invasores” – e a urgência de sua denúncia é apagada pelo processo perverso da criminalização. O grupo de homens e mulheres que ocupou o prédio trabalhou dois meses para tirar de dentro do hotel abandonado mais de 200 caçambas de lixo. “Não aguento mais ser faxineira do Estado”, comenta uma personagem durante a ocupação de outro prédio, às voltas com um duríssimo mutirão de limpeza em que se corre risco de contaminação e acidentes.

O curioso do olhar cristalizado sobre as ocupações dos prédios abandonados há anos, às vezes décadas, é que nele os “vândalos” não são os proprietários e especuladores que abandonam edificações numa região crucial para a cidade e para a cidadania, mas aqueles que querem e precisam resgatar o teto para a vida. Esta inversão ergue uma barreira que torna os integrantes dos movimentos de luta por moradia invisíveis apesar de estarem bem ali, na frente de todos. Quando um juiz decide pela reintegração de posse a partir do interior dos muros do seu gabinete, as bombas de gás da Polícia Militar encobrem ainda mais a realidade com fumaça tóxica, invisibilizando agora pela força.

Os movimentos de sem-teto são duramente reprimidos porque questionam a própria estrutura do sistema

Era o Hotel Cambridge, filme e livro, mostram que pela luta por moradia passam todas as tensões do Brasil atual. E é por essa força mobilizadora, capaz de questionar o sistema em seu próprio existir cotidiano, que os movimentos de sem-teto têm sido tão duramente reprimidos, e ainda assim resistem. A recente ocupação da Paulista, avenida-símbolo de São Paulo, pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) por mais de 20 dias é um exemplo da potência desta luta no território urbano.

A cena reproduzida na abertura deste texto mostra vida e arte misturadas. A ocupação do Hotel Cambridge existe, a maioria das pessoas que aparecem nas tomadas do filme lá vivem, Carmen é uma das líderes mais impressionantes da luta por moradia. Mas, ao mesmo tempo, Carmen está interpretando a si mesma, assim como o congolês e o palestino são refugiados na “vida real”, mas no filme interpretam personagens que são refugiados do Congo e da Palestina. Muito tem sido discutido, inclusive pelos próprios autores, se Era o Hotel Cambridge é documentário ou ficção ou uma mistura dos dois, na linha de realizações que têm se tornado mais frequentes nos últimos anos, sendo o mais notório deles o excelente Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós.

Se o filme da diretora Eliane Caffé é sobre todas as tensões do Brasil atual que atravessam a luta por moradia, me parece que sua força maior está no olhar sobre as identidades. E também sobre as identidades de uma obra cultural. Assim, se a vida transborda do filme, e ela transborda, como se verá, o filme também transborda para o livro de Carla Caffé. E o livro de Carla Caffé transborda para o filme, e ambos transbordam da vida – e para a vida. É justamente neste atravessamento das fronteiras, de todas as fronteiras, que está a maior qualidade desta obra que é filme + livro + mais. É também neste atravessamento das fronteiras das identidades que reside sua capacidade de fazer um corte na cena cultural – e na cena política.

Esta ideia está explícita na síntese produzida por Carmen Silva, ao abrigar estrangeiros de diversas origens com brasileiros de diversas origens sob o teto da mesma palavra-casa: “refugiados”. Ela sinaliza que a identidade só pode existir como atravessamento de múltiplos.

O filme abriga todos os que estão “fora” sob o teto da mesma palavra-casa: “refugiados”

Este é o amálgama que une todos aqueles homens e mulheres, adultos e crianças que se dedicam ao absurdo da vida nos corredores do Hotel Cambridge. O amálgama que coloca os brasileiros como um “fora” mesmo dentro do seu próprio país, os estrangeiros como um “fora” de suas pátrias de origem. Mas todos eles sem refúgio de fato, exceto o do provisório, do efêmero, que constroem num antigo hotel de luxo abandonado. O único refúgio permanente é o desta identidade atravessada que permite que se movam e que confrontem o sistema por “dentro”, eles que são aqueles que foram colocados “fora”. O refúgio permanente é justamente o improvável de sua existência coletiva.

E assim, Era o Hotel Cambridge, filme+livro+mais=acontecimento converte-se em uma das obras culturais mais criativas e criadoras dos últimos muitos anos. E uma obra que incorpora a política, na sua expressão mais profunda, como a própria carne do seu fazer. Vida e obra se entrelaçam de tal maneira que o filme está nos cinemas e nas ruas ao mesmo tempo. Para Carmen Silva e moradores do Cambridge, a obra se tornou um instrumento de luta na medida em que se converteu em um meio para se fazer conhecer.

Foi preciso que os sem-teto migrassem para a tela de cinema para que pudessem ser enxergados nas ruas

Este é um ponto de extrema importância: é preciso que a vida dos sem-teto migre para a tela, convertida em ficção, para que os habitantes de São Paulo possam encontrá-los lá, no cinema, e então, (talvez), tornarem-se capazes de enxergá-los onde concretamente estão, nas várias ocupações da cidade, por onde muitos passam todos os dias vendo sem ver. De certo modo, é o avesso do que acontece em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, filme em que o galã sai da tela para que finalmente a personagem real da plateia ganhe vida. Só que, ali, tudo é ficção.

Era o Hotel Cambridge, o filme, tem permitido atravessar as fronteiras no território murado que é São Paulo. E assim fazer a ponte de uma palavra – “invasor” – para outra palavra – “refugiado”. A ficção se apropriou da realidade – e a realidade se apropriou da ficção para o parto de outros possíveis.

Para que isso acontecesse, Eliane e Carla, as Irmãs Caffé, arriscaram-se a uma construção ousada. Mas nem elas poderiam saber que as conexões resultariam tão potentes. Sua ousadia maior, num primeiro momento, foi a de se entregar ao risco. Para começar, a Escola da Cidade, uma escola de arquitetura que busca aproximar a academia do “fazer da cidade”, foi convidada a participar do projeto e 21 estudantes se dedicaram a pensar a ocupação concreta do Hotel Cambridge a partir do conceito de “arquitetura efêmera”. Este processo está lindamente documentado no livro Era o hotel Cambridge – arquitetura, cinema e educação(Edições Sesc São Paulo), em que Carla Caffé conta essa história em quadrinhos, como uma espécie de fotonovela, entre outros recursos de linguagem.

“A arquitetura não pode ser apenas para os ricos”, diz o personagem real da fotonovela

“O exercício de uma arquitetura mais humanitária é urgente! Uma arquitetura que se ocupe das novas paisagens, dessas zonas complexas de conflito, como é o caso das ocupações, dos acampamentos de refugiados, das paisagens que surgem depois que acontecem as catástrofes. A arquitetura não pode ser apenas para os ricos”, é uma das falas dos primeiros quadrinhos, nos quais os personagens da Escola da Cidade vão sendo apresentados. Dos 7 bilhões de habitantes do planeta, dois terços ou o equivalente a 23 vezes a população do Brasil jamais tiveram acesso a qualquer produto formal de arquitetura, escreve Jorge Lobos, fundador e presidente da ONG Emergency, Architecture e Human Rights (Emergência, Arquitetura e Direitos Humanos), no final do livro.

A direção de arte do filme foi colocada a serviço de benfeitorias concretas para o prédio. Mas essas necessidades, desejos e limites só poderiam ser determinados pelos próprios moradores e pela própria realidade. Assim, por exemplo, o antigo salão de chá do Hotel Cambridge se transformou numa biblioteca bem organizada e acolhedora. Em todo o processo, a experiência cotidiana dos refugiados do Cambridge foi incorporada. Desta maneira, grande parte do material usado para cenografia e mobiliário foi garimpada no que os moradores chamam de “Shopping Rua” ou “Shopping Caçamba”, na qual reusam os refugos da construção civil. Percorreu-se então os ecopontos de São Paulo para buscar a matéria-prima.

As ocupações de sem-teto representam uma vanguarda ética e estética na maior cidade do Brasil

Esta não é uma experiência de pobrezamaterial, como alguns poderiam pensar, mas uma experiência estética rica – e uma conduta ética num planeta que está sendo destruído pelo consumo capitalista. Neste sentido, as ocupações de sem-teto representam, em São Paulo, uma vanguarda ética e estética na forma como lidam e como olham para o material reciclável ou de reuso. E para os próprios prédios abandonados, restos arquitetônicos da cidade, que ocupam, reciclam e ressignificam.

As cores do filme foram alcançadas a partir de um estudo da ocupação, na qual se descobre que, se os corredores do hotel são monocromáticos, nos quartos e habitações há uma explosão de cores e de soluções criativas. O próprio figurino dos personagens foi escolhido e montado a partir do guarda-roupa dos moradores. Um evento chamado “Ocupa Eu”, misto de desfile de moda e ensaio fotográfico, foi organizado para compreender a experiência dos moradores do Cambridge com roupas, acessórios e corpo. Assim como as locações foram escolhidas a partir da dinâmica da realidade, como a padaria que até hoje segue em funcionamento, já que uma das primeiras medidas de uma ocupação é a organização da cozinha comunitária. O roteiro e os diálogos surgiram e se modificaram a partir de oficinas de vídeo com os refugiados e do acompanhamento das reuniões e assembleias do prédio, entre outras atividades cotidianas. Também aqui as fronteiras entre arquitetura e cinema, cenografia e vida, figurino e guarda-roupa são atravessadas, evocando a ideia da identidade como múltiplo.

O coletivo não anula as singularidades – e sim as potencializa

O filme é falado em cinco línguas, para garantir que as vozes de todos os refugiados estivessem representadas. Como aponta Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, no início do livro: “No Brasil, novas levas de imigrantes, como coreanos, chineses, peruanos, bolivianos e, mais recentemente, haitianos e sírios, imprimem novos sotaques à língua portuguesa e nos fazem repensar o multiculturalismo brasileiro”. Esta é outra riqueza do filme, em que o coletivo não anula as singularidades. Ao contrário, as potencializa. E, assim, as fronteiras das identidades também são atravessadas na linguagem.

No filme há apenas dois atores conhecidos: José Dumont e Suely Franco. José Dumont faz o personagem Apolo, que tenta formar um grupo de atores no Hotel Cambridge para encenar o que chama de “Quadros Vivos”. Seu sonho é produzir um novo olhar sobre a ocupação e seus protagonistas, capaz de se contrapor à narrativa hegemônica que os criminaliza e conquistar a opinião pública. De certo modo, o que a diretora Eliane Caffé faz no filme são exatamente quadros vivos. Tão vivos que tomam conta do próprio filme e, hoje, apropriaram-se dele para a dinâmica da luta por moradia.

Esta também foi uma experiência inusitada para a diretora, assim contada por ela no livro: “Imaginem o grau de ansiedade de montar o quebra-cabeças de um filme e, ao mesmo tempo, ver os personagens desse mesmo filme correndo soltos e livres no mundo real”. O momento em que a personagem Carmen lidera uma nova ocupação a partir de uma concentração no Hotel Cambridge aconteceu três meses após o final das filmagens. Rapidamente uma pequena equipe se mobilizou para gravar as cenas da vida real. A única interferência do cinema foi pedir à Carmen da vida real que vestisse a blusa em que a Carmen da ficção aparecia numa cena gravada para o filme. “Acho incrível perceber como toda sutura dramática que une essa cena às outras feitas muito antes foi conseguida, em grande parte, apenas pela blusa estampada que Carmen vestia nas duas ocasiões”, comenta Eliane Caffé.

Entre os achados mais emocionantes do filme estão as conversas por Skype dos refugiados de outras pátrias com seus familiares e amigos que ficaram nos territórios devastados de origem. Neste momento, as telas dos computadores se tornam as janelas do Hotel Cambridge abertas para o mundo. E ali, nestas janelas, descobre-se o quanto esta dor é, ao mesmo tempo, universal e particular, sem que se perca nenhuma destas duas dimensões. E o quanto é São Paulo, mas é também o mundo.

A conversa por Skype de Hassam, personagem do refugiado Isam Ahmad Issa, é extremamente rica pelo que revela dos tantos atravessamentos aos quais o filme se arrisca. É como seu personagem que ele fala por Skype. Mas na tela está uma amiga real de Isam na Faixa de Gaza. Ele mesmo vem de outro filme, o belo documentário A Chave da Casa, de Paschoal Samora e Stela Grisotti. Aturdida pela filosofia poética das falas de Isam, Eliane Caffé vai descobri-lo no Rio Grande do Sul, onde este refugiado vivia então. Mas, a partir da experiência de ser o personagem Hassam, de Era o Hotel Cambridge, a diretora conta que ele se mudou na vida real para o Hotel Cambridge. Assim, são várias fronteiras cruzadas que, ao contrário de produzir apagamentos, torna ainda mais visível a identidade como múltiplo.

A gambiarra é a expressão da inventividade humana, cuja maior transgressão é criar vida numa cultura de morte

A “gambiarra”, como ideia que perpassa o filme, resume essa potência. Vista pelas elites como algo pobre e até mesmo pejorativo, a enorme inventividade representada na gambiarra, que cria com muito pouco e cria com o que já foi usado, é uma onipresença no filme, no livro e na vida do movimento de luta por moradia. Os achados criativos, belos e funcionais a partir da matéria disponível compõem uma metáfora para a enorme força criadora destes milhares de refugiados em busca de um teto – e de um dentro. O Hotel Cambridge, este esqueleto alquebrado no centro de São Paulo, é recoberto então por delicada pele humana.

A gambiarra é também a expressão desta carne castigada, cuja maior transgressão é criar vida numa cultura de morte. A gambiarra na construção de equipamentos que permitissem filmar o Hotel Cambridge por dentro, tão bem contadas no livro, remete ainda à própria invenção do cinema. Afinal, as criações do ilusionista francês Georges Méliès, tão poeticamente contadas no filme A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, são estupendas gambiarras que nos trouxeram até aqui.

Nosso presente, a forma como vivemos hoje, é resultado também do futuro que somos capazes de imaginar. Esse futuro imaginado, como já escrevi aqui, têm sido expresso hoje por distopias, tanto no cotidiano de tantos, como nas séries de ficção. O que não é de se espantar, dado o presente brutal do Brasil e do mundo e a perspectiva da mudança climática em curso. O espantoso é perceber, e esta é também a força de Era o Hotel Cambridge, que são justamente os refugiados, os sem-teto do mundo, que têm conseguido imaginar um futuro em que a vida seja possível. E, assim, Era o Hotel Cambridge torna-se expressão máxima de potência numa São Paulo distópica, metáfora concreta do mundo. A gambiarra improvável que resiste como possibilidade entre ruínas.

______

Publicado em Sem categoria | Comentários desativados

Do futuro dos estudos em hospitalidade

Conrad Lashley acaba de lançar o The Routledge handbook of hospitality studies (disponível nos portais da Routledge e da Amazon e em versão eletrônica também na Livraria Cultura). Em um dos capítulos escritos por ele (‘Hospitality and beyond’), Conrad reflete sobre o futuro da pesquisa em hospitalidade e diz que o estudo da hospitalidade depende da disposição e da coragem das pessoas para romper fronteiras temáticas e de expor seu pensamento, para além dos domínios social e cultural, ou da aplicação dos conceitos de hospitalidade e hospitabilidade ao contexto comercial.

Acaba de sair também o livro Politique de l´hospitalité, de Benjamin Boudou (pesquisador do Max Planck Institute for the Study of Religious and Ethnic Diversity), como que respondendo a este desafio. Novas ideias, novos ares, novos argumentos. Abramo-nos ao novo. Simples assim. O livro pode ser encontrado no site da CNRS Éditions

Benjamin

Publicado em Sem categoria | Comentários desativados

Aos mestres, com carinho

Na última sexta feira, dia 30/09, durante a 13a edição do seminário anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), foram premiados os professores Luiz Gonzaga Godoi Trigo e Luiz Octávio de Lima Camargo, respectivamente com os títulos de Pesquisador Destaque e Pesquisador Emérito.

14441211_10154548453136575_8084982585553317560_n

Por certo a premiação emocionou muitos de nós que estávamos presentes e também quem não estava. Não é novidade para ninguém que Trigo e Luiz Octávio são duas das figuras mais importantes do turismo, lazer e hospitalidade deste país. Como profissionais e como acadêmicos. Ambos seguiram uma carreira brilhante de mercado e na universidade, como professores e pesquisadores. A ‘ficha corrida’ dos dois é enorme.

Em comum, foram  funcionários do Sistema S, no SENAC e no SESC, nas áreas de Hotelaria e de Lazer. Deixaram suas marcas na instituição e fizeram história. Uma história que se reproduz em mim e nos muitos funcionários de ambas as instituições, que os reconhecem por sua influência, por sua cultura, por sua garra no trabalho e na vida.

Foi no SENAC que conheci o Trigo, em 1994, quando ele era consultor no Curso de Tecnologia em Hotelaria do campus de Águas de São Pedro, onde eu viria a dar aulas no ano seguinte. Mais tarde, ele tornou-se gerente corporativo da unidade da Francisco Matarazzo e veio a ser meu chefe. Nossas salas ficavam no mesmo andar e muitas vezes ao cruzá-la Trigo entrava. Gostava da conversa com David Tuch, Mauro Motoda e eu. Sei lá por que, mas ouso desconfiar que por muitos motivos. Algumas vezes saí para jantar com ele e Ronaldo Barreto – levaram-me, certa feita, a um restaurante indiano para comer enguia, o que me agradou deveras. Sim, de verdade. Tínhamos uma relação curiosa - nem próxima, nem distante. Mas, de alguma forma, com a tônica das relações de amizade que duram muito tempo. Um dia, entrou na minha sala com um livro, entregou-me e disse: “Você tem que ler isso”. Era ‘Zen e a arte de manutenção das motocicletas’. Conheço pouquíssimas pessoas que o leram e não podia ter havido presente melhor. Por que foi dado? Nunca soube, nem quis saber. Noutra ocasião, viajou para a China e deixou a Simone, bibliotecária, preocupada com o Editorial do clipping mensal, feito por ele. Duas edições ficariam órfãs e ela desejava que ele deixasse alguém com a tarefa. Ele entrou na minha sala, entregou-me a incumbência e disse: “Te trago um presente da China”. Não trouxe, não cobrei. A confiança que ele me entregou naquele momento era uma mostra clara de admiração – Trigo gosta de quem tem amor pelas letras e confia sua pena a muito poucas pessoas. Fui uma delas e esta deferência eu levo como um trofeu. Na volta, ele não fez o terceiro clipping, delegando-o também a mim. Tempos depois, entregou-me suas aulas da UniSant´Anna, por não dispor de horários livres para ministrá-las. Deu-me todas, uma a uma. Foi a primeira vez que me vi professora em tempo integral. Eram 40 horas de SENAC e outras 16 de Uni Sant´Anna. Com o endosso dele. Foi meu passaporte para o futuro, no sentido de me fazer ver o quanto a docência estava em mim e que aquilo era o que eu queria ser para sempre: professora. Num dos bolos do mês, que ele organizava para aniversariantes e para dar destaque a funcionários que haviam atingido alguma meta ou feito algo legal, chamou-me lá na frente para falar do meu trabalho à frente de um projeto que havíamos desenvolvido anos antes para o Caesar Park – uma pesquisa de mercado em 17 cidades, com 39 pesquisadores em campo, um QG montado na minha casa e cinco horas de exposição dos resultados no escritório corporativo do antigo Caesar Park da Augusta. Naquele momento, era implantado o primeiro dos hotéis com a marca Caesar Towers estudados nesse tal projeto e o SENAC havia recebido um convite para a abertura, com menção à participação do nosso setor nos estudos. Na sequência do parabéns, deu-me um abraço apertado e falou no meu ouvido: “Curta, mas não voe muito alto, mantenha os pés no chão. Eu lhe conto: a Terra é azul”. Nunca me esqueci disso. Quando alguma coisa dá muito certo na minha vida e fico com vontade de sair voando, lembro: a Terra é azul. Foi o que eu disse a ele na última sexta feira. Emocionamo-nos. Porque a vida é assim, uma sequência de trocas, um caminhar passo a passo, com alguém segurando a nossa mão. Segurar na mão de Luiz Trigo nesses 22 anos tem sido um aprendizado riquíssimo. Falar com ele de religião, viagens, filosofia ou de coisas bobas, sobre as quais muitas vezes discordamos, leva-me a pensar que a vida vale a pena mesmo é por essas histórias que a gente coleciona e guarda no coração.

Luiz Octávio conheci há poucos anos. Muito provavelmente depois de todo mundo. Fui à EACH pedir a ajuda dele num projeto, conversamos um pouco, contei a ele de mim e ele me falou da história dele na área de hospitalidade. Uma paixão acadêmica tardia, depois de tanta colaboração já dada na área do lazer, em sua história no SESC. Se essa coisa de vocação existe mesmo, pois nele isso se provou. A vida no seminário, a proximidade com as coisas do espírito, o humor inteligente e o olhar curioso o levaram à área que tem tanto dele e na qual ele se tornou, para nós, o representante maior. O humor e a notável erudição são o bastante para fazer com que qualquer pessoa se interesse muito por estar ao seu lado e conversar por algumas horas, ou minutos somente. Mas há mais. Luiz Octávio é das pessoas mais generosas que conheço e, comigo, tem sido ao extremo. Tem ainda me concedido uma confiança que preciso publicamente reconhecer e agradecer. Gratuitamente. Foi por confiança que ele se meteu num avião em 2014, indo parar numa cidadezinha fria do norte dos Países Baixos, para um encontro com Conrad Lashley (!!!!). Foi por confiança que ele escreveu um dos textos que considero um dos melhores entre os escritos por ele, para a edição de maio de 2015 da Revista Hospitalidade. Foi por confiança que ele deu as diretrizes para meu trabalho no pós-doutorado. É confiando em mim que ele me incentiva a correr atrás dos meus sonhos, a buscar meu lugar, a escrever, a pensar, a participar de discussões sobre questões que mal entendo. Se preciso de um conselho, é a ele que recorro. É ele quem procuro quando não sei como agir numa ou em outra situação. E eu o ouço. Sempre.

Não tenho muito a medida da minha gratidão por esses dois. Mas sei que devo declará-la aqui e agora. Parabéns, meninos! Muito obrigada, por tudo. Vocês merecem demais esse  prêmio e esse reconhecimento!

 

Publicado em Sem categoria | Comentários desativados

LANÇAMENTO: The Routledge handbook of hospitality studies: theoretical perspectives and debates

Em dezembro próximo será lançado o livro The Routledge handbook of hospitality studies: theoretical perspectives and debates, sob a batuta do queridíssimo Prof. Dr. Conrad Lashley, da Stenden University of Applied Sciences, localizada em Leeuwarden, nos Países Baixos.

Trata-se de uma obra de vulto, que reafirma a importância do Prof. Lashley no contexto dos estudos de hospitalidade, em nível mundial.

O conjunto de 432 páginas e 33 capítulos conta com cinco capítulos escritos por nove autores brasileiros – Luiz Gonzaga Godoi Trigo (EACH-USP), Ricardo Lanzarini (IFSP Barretos), Márcia Maria Cappellano dos Santos (UCS), Olga Araujo Perazzolo (UCS), Siloe Pereira (UCS), Leandro Benedini Brusadin (UFOP), Helena Catão Henriques Ferreira (UFF), Ana Paula Garcia Spolon (UFF), Aguinaldo César Fratucci (UFF) – e uma autora portuguesa, a professora Isabel Baptista, da Universidade Católica do Porto.

A obra é inovadora no sentido de apresentar temas ainda pouco tratados nos estudos de hospitalidade (como, por exemplo, a forma de constituição dos leprosários e das antigas hospedarias de imigrantes, a economia colaborativa, o mercado do sexo, o empoderamento feminino, a questão da identidade territorial e o prossumerismo) e por acolher pesquisadores jovens do mundo todo.

Mais um exemplo de que o caminho da colaboração, da atuação em rede e da alteridade no sentido do respeito às ideias e ao pensamento do outro pode de fato trazer grandes resultados à academia, tornando-a um ambiente mais saudável, alegre e hospitaleiro.

Informações em https://www.routledge.com/The-Routledge-Handbook-of-Hospitality-Studies/Lashley/p/book/9781138931121.

SERVIÇO:

The Routledge handbook of hospitality studies: theoretical perspectives and debates

Conrad Lashley (editor)

Routledge, 2016

ISSN: 978-1-138-93112-1

capturar

Publicado em Sem categoria | Comentários desativados

O que é hospitalidade?

Longo caminho a percorrer na resposta a esta pergunta, que parece tão simples.

O começo da discussão está aqui, nas palavras do Prof. Dr. Conrad Lashley que tem me ensinado a compreender o sentido verdadeiro da hospitalidade acadêmica, compartilhando conhecimentos e tendo uma postura absolutamente altruísta em relação à pesquisa e produção de conhecimento relativo ao tema:

https://www.youtube.com/watch?v=dc2x9_8zgos.

Publicado em Sem categoria | Comentários desativados

Por onde andou Sherlock Holmes

Sherlock Holmes é o personagem criado pelo médico e escritor escocês Sir Arthur Conan Doyle em 1887 (na novela Um estudo em vermelho) e que apareceu, no total, em quatro romances e 56 contos do escritor.

Holmes era um detetive particular britânico cuja característica mais destacada era a capacidade ímpar de uso da lógica dedutiva e do método científico para solucionar casos misteriosos. Diz-se que Doyle inspirou-se em um ex-professor, Dr. Joseph Bell, para moldar a personalidade de Sherlock Holmes.

ArthurConanDoyle_AStudyInScarlet_annual

O “detetive consultor” tornou-se muito popular e é considerado até hoje um dos mais carismáticos personagens da literatura policial.

Na ficção, sua residência era o número 221B da Baker Street, em Londres, onde desde 1990 está instalado o Sherlock Holmes Museum, que conta a sua história e de seu fiel amigo e escudeiro, o Dr. John H. Watson, presente na maioria das tramas de Doyle.

  Sherlock Holmes Museum (7)  Sherlock Holmes Museum (9)  Sherlock Holmes Museum (11)

Sherlock Holmes aparece ainda citado em muitas obras e inspirou, na história, dezenas de personagens, entre os quais Sir Lock Holmes e Berloque Gomes (ambos da Disney) e Adrian Monk e Gregory House, das séries televisivas americanas Adrian Monk e Dr. House. As obras de Doyle foram ainda adaptadas para o teatro, cinema e TV.

No Brasil, o escritor Jô Soares homenageia o personagem (e também o Dr. Watson) na obra O Xangô de Baker Street, publicada pela Companhia das Letras em 1995 e adaptada por Miguel Faria Jr. para o cinema em 2001. O livro – e o filme – conta a história do desaparecimento de um violino Stradivarius. No Brasil para uma série de apresentações, a atriz Sarah Barnhardt indica ao imperador que convide o detetive Sherlock Holmes, seu amigo pessoal, para desvendar o mistério. Na história, várias cenas de um Rio de Janeiro turístico e hospitaleiro, pelos olhos dos britânicos Sherlock Holmes e Dr. Watson.

A análise desta obra, pela vertente do turismo, da hospitalidade e da geografia cultural, foi apresentada no último dia 16 de outubro, durante o II Colóquio Literatura e Paisagem e II Colóquio Interdisciplinar Literatura, Viagens e Turismo no Brasil, na França e em Portugal, eventos que acontecem em Niterói e no Rio de Janeiro, promovidos pelo grupo de pesquisa Estudos de Paisagem nas Literaturas de Língua Portuguesa (CNPq/UFF).

A apresentação foi brilhantemente realizada por minha querida orientanda, Izadora Montez, representando-me e o texto completo será publicado em livro, coordenado pelo grupo de pesquisa da UFF, este capitaneado pela Profa. Dra. Ida Alves.

O trabalho, intitulado “Por onde andou Sherlock Holmes: o Rio de Janeiro turístico e geográfico na obra O Xangô de Baker Street, de Jô Soares”, é parte das pesquisas desenvolvidas na linha de pesquisa Hospitalidade: materialidades, espacialidades, práticas e desafios contemporâneos, do grupo de pesquisa Hospitalidade contemporânea.

foldercoloquioweb

Publicado em livros, Sem categoria | Comentários desativados

In search of hospitality…

Nunca o título do livro do Prof. Conrad Lashley me pareceu, pessoalmente, tão adequado.

Esta semana, fiz minha parte como pesquisadora e fui “em busca da hospitalidade”, em uma viagem que começou com uma visita técnica ao Stenden Hotel School, vinculado ao programa de Gestão Hoteleira da Stenden University, em Leeuwarden, norte da Holanda. Para quebrar paradigmas educacionais e preconceitos profissionais – há coisas maravilhosas sendo feitas, em termos de formação, em lugares que nos atrevemos (não devendo…) a ignorar!

download

download (1)

Em Leeuwarden, fui recebida pelo Prof. Sjoerd Gehrels e pelo Prof. Conrad Lashley, na verdade o responsável por intermediar esta visita, uma vez que foi quem apresentou brasileiros e holandeses!

Agora, em Londres, participo, na British Sociological Association, da conferência “Food, drink and hospitality: space, materiality and practice”, organizada pelo Prof. Peter Lugosi (Oxford Gastronomica/Oxford Brookes University) e que conta com a presença de muitos pesquisadores que admiramos.

São muitos, mas para mim em especial são relevantes as presenças do Prof. Paul Cleave (University of Exeter) e do Prof. Paul Lynch (Napier University). Há estudiosos da escola britânica como um todo e os vindos de China, Estados Unidos, Austrália, Itália e Alemanha.

FDH venue

Não sei onde essa busca vai dar. Mas sei que encontro, nessas experiências, excelentes exemplos do que Alison Phipps e Ronald Barnett* chamam de ‘hospitalidade acadêmica’:

“Academic hospitality is a feature of academic life. It takes many forms. It takes material form in the hosting of academics giving papers. It takes epistemological form in the welcome of new ideas. It takes linguistic form in the translation of academic work into other languages, and it takes touristic form through the welcome and generosity with which academic visitors are received. These forms intersect each other and may co-exist at any one time. In the midst of the different forms of academic hospitality other matters surface. What is at stake when we give and receive academic hospitality? With travel being increasingly commonplace in academic life what forms of welcome and of hosting are emerging? Who is welcomed with open arms and who is not? What are the proper limits of academic hospitality? What of the stranger in our midst? What is the language of hospitality? What of virtual academic hospitality? What are the rules of the ceremonies of academic welcome? And what of the academic guest? How might we understand the modes and forms of academic hospitality? This article examines recent theories of hospitality and academic life in order to assess the potential, the rules and the limits for hospitality in an academy subject to rapid change and movement of ideas, bodies and space”.

* Link para o artigo: http://ahh.sagepub.com/content/6/3/237.short.

De minha parte… gratidão. Não é sempre que, em uma única semana, a gente tem a oportunidade de interagir com nossas “referências”. E sigamos adiante, em busca da hospitalidade!

 

Publicado em Sem categoria | Comentários desativados

Como nasce a ética – por Leonardo Boff

Texto publicado no site do Instituto Ethos, para os interessados em repensar o que é a hospitalidade e para que ela serve, nos dias de hoje. Disponível aqui.

Como nasce a ética?

 

A sociedade capitalista valoriza mais a competição do que a cooperação e magnifica o indivíduo que se constrói sozinho, e não a sociedade e a comunidade. 

Por Leonardo Boff*

A base de toda construção ética, cujo campo é a prática, está nesta pressuposição: a ética surge quando o outro emerge diante de nós.

O outro pode ser a própria pessoa que se volta sobre si mesma, analisa a consciência, capta os apelos que nela se manifestam (ódio, compaixão, solidariedade, vontade de dominação ou de cooperação, sentido de responsabilidade), se dá conta de seus atos e das consequências que deles se derivam. O outro pode ser aquele que está à sua frente, homem ou mulher, criança, trabalhador, empresário, portador de HIV, negro etc.

O outro podem ser os outros como uma comunidade, uma classe social, a sociedade como um todo, ou, numa perspectiva mais global, a natureza, o planeta Terra como Gaia e, em último termo, Deus.

Diante do outro ninguém pode ficar indiferente. Tem que tomar posição. Mesmo não tomando posição, silenciando e mostrando-se indiferente, já é uma posição.

A ética surge a partir do modo como se estabelece a relação com esses diferentes tipos de outro. Pode fechar-se ou abrir-se ao outro, pode querer dominar o outro, pode entrar numa aliança com ele, pode negar o outro como alteridade, não o respeitando, mas incorporando-o, submetendo-o ou simplesmente destruindo-o.

De todas as formas, o outro representa uma pro-posta que reclama uma res-posta. Desse confronto entre pro-posta e res-posta surge a res-ponsa-bilidade. Ao assumir minha responsabilidade ou demitir-me dela, me faço um ser ético. Dou-me conta da consequência de meus atos. Eles podem ser bons ou ruins para o outro e para mim.

O outro é determinante. Sem passar pelo outro (que posso ser eu mesmo), toda ética é antiética.

Não sem razão, todas as religiões e tradições éticas, do Ocidente e do Oriente, estabelecem como máxima fundadora do discurso ético: “Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Ou positivamente: “Faze ao outro o que gostarias que te fizessem a ti”. É a regra áurea.

E como o outro mais outro é o pobre e o excluído, o imperativo ético mínimo e urgente, prévio a qualquer outro, é esse, bem formulado por Enrique Dussel, argentino e filósofo da libertação: “Liberta o pobre e inclui o excluído”.

Apliquemos isso à nossa sociedade. Ela não é uma sociedade qualquer. Precisa ser qualificada: é uma sociedade predominantemente estruturada no modo de produção capitalista, quer dizer, privilegia o capital sobre o trabalho, privatiza os meios de produção e define de forma desigual o acesso aos bens necessários à vida: primeiro quem detém os meios de produção, depois os demais, deixando até de fora quem não tem força social de pressão. São os excluídos, hoje perfazendo as grandes maiorias da humanidade, cujas vidas não têm sustentabilidade, vivem abaixo do nível de pobreza e, em consequência, morrem antes do tempo.

Esse tipo de sociedade valoriza mais a competição do que a cooperação e magnifica o indivíduo que constrói sozinho sua vida, seu bem-estar e seu destino, e não a sociedade e a comunidade dentro das quais, concretamente, o indivíduo sempre se encontra.

A sociedade neoliberal levou até as ultimas consequências essa visão. Por isso, os governos administram desigualmente os bens públicos, privatizam, planejam políticas públicas e sociais pobres para os pobres e ricas para os ricos e poderosos, sejam indivíduos, empresas ou classes; atendem primeiramente a seus interesses, garantem o seu tipo de consumo e são atentos às suas expectativas. Não incentivam as pessoas a olhar para os lados onde estão os outros e assim fazer e refazer continuamente a solidariedade social.

Tais governos não realizam a definição mínima de política, que é a busca comum do bem comum e o cuidado das coisas do povo. Por isso são antiéticos e fautores de atitudes coletivas em contradição com os apelos éticos. Porque não se orientam pelo outro, que é o princípio fundador da ética básica.

A sociedade mundial hoje globalizada nesse modelo antiético promove a globalização como homogeneização: um só pensamento, um só modo de produção (o capitalista), um só tipo de mercado, um só tipo de religião (o cristianismo), um só tipo de música (rock), um só tipo de comida (fast food), um só tipo de executivo, um só tipo de educação, um só tipo de língua (o inglês) etc.

Com a negação da alteridade ou o seu submetimento ou a sua destruição, a sociedade-mundo atual se coloca em contradição com a ética. Essa atitude perversa tem como consequência a má qualidade de vida atual em todos os âmbitos sociais, culturais e ambientais.

Essa atitude é tanto mais grave pelo fato de atingir o substrato físico-químico que possibilita a biosfera e o projeto planetário humano. Não se respeita a Terra como o grande outro e como subjetividade, chamada Gaia. Reduz esse superorganismo vivo, a um baú inerte de recursos naturais, entregues ao bel-prazer humano. Violenta a alteridade dos ecossistemas, depredando seus recursos, ameaçando as espécies, envenenando os ares, poluindo os solos, contaminando as águas, como se esses representantes da comunidade terrenal não tivessem uma história mais ancestral do que a nossa e nós não dependêssemos deles para a nossa própria vida.

O preceito ético-ecológico urgente hoje é este: “Age de tal maneira que tuas ações não sejam destrutivas da Casa Comum, a Terra, e de tudo o que nela vive e coexiste conosco”.

Ou: “Age de tal maneira que tua ação seja benfazeja a todos os seres, especialmente aos vivos”.

Ou :“Age de tal maneira que permitas que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a continuar a evoluir conosco”.

Ou então: “Usa e consome o que precisas com responsabilidade para que as coisas possam continuar a existir, atendam nossas necessidades e as das gerações futuras, de todos os demais seres vivos, que também junto conosco têm direito de consumir e de viver”.

Precisamos consumir para viver. Mas devemos consumir com responsabilidade e com solidariedade para com os outros, respeitando as coisas em sua alteridade e entrando em comunhão com elas, pois são nossos companheiros e companheiras na imensa aventura terrenal e cósmica.

Como se depreende, não é essa a ética que predomina. A ética vigente é predatória, irresponsável, individualista, perversa para com os outros, tratados com dissimetria e injustiça nos processos produção, de distribuição e de compensação. Ela é cruel e sem piedade para a grande maioria dos seres vivos, humanos e não humanos. Por fim, ela ameaça o futuro da biosfera e do projeto humano.

Para superarmos essa ética altamente destrutiva do futuro da humanidade e do planeta Terra, devemos partir de outra ótica. Só uma nova ótica pode gerar uma nova ética.

A nova ótica que está se difundindo um pouco por todas as partes arranca de outra compreensão da realidade, fundada no conjunto de saberes que perfazem as ciências da Terra.

A tese de base dessa ótica afirma que a lei suprema do universo é a da interdependência de todos com todos. Tudo está relacionado com tudo em todos os pontos e em todos momentos. Ninguém vive fora da relação. Mesmo a lei de Darwin do triunfo do mais forte se inscreve dentro dessa panrelacionalidade e solidariedade universal. Por causa das inter-retrorrelações de todos com todos é que se garantiu a diversidade em todos os campos, particularmente, a biodiversidade e o fato de todos podermos chegar ao ponto a que atualmente chegamos.

Sobrevivemos graças às bilhões de células que interagem entre si em nosso corpo e das bilhões de bactérias, mitocôndrias e outros corpos que vivem dentro das células, células que formam organismos, corpos, sistemas, interconcectados com o meio natural e cósmico.

Essa cooperação de todos com todos funda uma nova ótica, que, por sua vez, origina uma nova ética de con-vivência, cooperação, sinergia, solidariedade e comunhão de todos com todos e com a Terra, com a natureza e com seus ecossistemas. A partir dessa ética, nos contemos, nos submetemos a restrições e valorizamos as renúncias em função dos outros e do todo.

Ou assumimos tal ética e sobre ela fundamos um novo pacto sociocósmico ou corremos o risco de ir ao encontro do pior, ou de fazermos uma travessia altamente destruidora da vida e da humanidade, capaz de dizimar um número incontável de seres vivos.

A partir dos sobreviventes desse eventual colapso, aprender-se-ão as amargas, mas benfazejas lições para uma nova história. Com os valores fundados na cooperação e na solidariedade, inaugurar-se-á outro tipo de ser humano, com outro tipo de civilização e com outro tipo de destino planetário da humanidade. O ser humano, indivíduo social, aprenderá a entender-se como sendo a própria Terra que chegou ao momento de sentir, pensar, amar, venerar e se responsabilizar pelo futuro comum dos humanos, de todos os demais seres e da própria Terra, pátria e mátria de todos.

Uma nova história começará, seguramente mais cooperativa, humanitária, ética e espiritual.

* O teólogo e professor Leonardo Boff é autor de mais de 60 livros sobre teologia, filosofia, espiritualidade, antropologia e mística.

Publicado em hospitalidade | Comentários desativados

Hospitalidade ao estranho, dimensões do entendimento moral

Lendo Hospitality to the stranger: dimensions of moral understanding, coletânea de ensaios de Thomas W. Ogletree, da Universidade de Yale, publicados pela Fortress Press em 1985.

A cada dia, sinto-me mais orientada a acreditar que o que define a hospitalidade são os preceitos da ética e as questões relacionadas à cultura, o que acaba por orientar, por óbvio, os paradigmas sociais de uma vida baseada na moral, bem como por evidenciar o egoísmo como o contraponto da prática moral da hospitalidade.

Para Thomas W. Ogletree, a identidade e a pluralidade são as bases que orientam o que é familiar e o que é estranho, vistos aos olhos de um e de outro, de visitantes e visitados, de hóspedes e anfitriões, de viajantes e residentes. Em última instância, uma boa alternativa para pensar “as tradições da hospitalidade e de refletir sobre a natureza da vida moral”.

Publicado em Uncategorized | Comentários desativados

A volta do Hotel Glória

 Acabo de receber em casa o livro “Hotel Glória – Um Tributo à Era Tapajós, Afetos, Memórias, Vínculos, Olhares”, lindo, necessário ao resgate e à manutenção da história da hotelaria nacional e, de quebra, bem escrito e cheio de curiosidades. Vem tarde. Poucas iniciativas neste sentido foram empenhadas, com destaque para os livros do Copacabana Palace (DBA) e do Grande Hotel São Pedro (SENAC São Paulo).

 

Disponível em http://farm1.static.flickr.com/121/274680342_9633640bf9.jpg, consulta em 21/10/2009.

 Sobre a reforma do hotel, que está sendo empreendida pelo Grupo EBX, do empresário Eike Batista, leia mais em http://vejabrasil.abril.com.br/rio-de-janeiro/editorial/m1358/passado-e-futuro-de-gloria. Para aguçar a curiosidade, veja a representação gráfica da nova fachada do hotel, a ser reinaugurado em 2011.

Publicado em Uncategorized | Comentários desativados